22.3.10

Por que ninguém pensa nas criancinhas?


Há duas semanas se apedreja Adriano e Vagner Love. O primeiro é acusado de ter uma namorada barraqueira, de ser amigo de traficantes e de ter dado uma moto de presente à mãe do chefe do morro da Chatuba. Ao outro, acusam de ter ido a um baile na Rocinha e recebido escolta de homens armados, que seriam soldados do tráfico de drogas.
O mais recente capítulo do apedrejamento aconteceu no final de semana de 20 e 21 de março, quando a Veja Rio dedicou sua capa às relações perigosas dos dois atletas com o poder paralelo do Rio de Janeiro. O texto, veemente como a Veja gosta de ser, acusa os dois jogadores de não terem consciência de suas importâncias como figuras públicas e ídolos para crianças e adolescentes e de considerarem normal o convívio com bandidos.
Antes da Veja Rio, o jornal O Dia dedicou uma semana inteira de reportagens sobre os deslizes do imperador rubro-negro. Publicaram que ele tem quase 100 pontos na carteira por repetidas infrações de trânsito, denunciaram o caso da moto (o único com alguma relevância) e afirmaram que Adriano não passa de um beberrão dado a orgias, que incluiriam anões, mulheres barbadas e até animais. 
Às denúncias, seguiram-se centenas de comentários e análises de jornalistas, esportivos ou não, sobre os desdobramentos e conseqüências do caso.
Tirando o sensacionalismo mais raso praticado tanto por Veja (esse exemplo de correção de conduta?!) e por O Dia, os episódios das últimas semanas servem de ponto inicial para algumas reflexões sobre a sociedade brasileira e a imprensa que, conseqüentemente, a espelha.
Volta e meia a sociedade brasileira sente que tem a necessidade de mostrar o local que cada um dos seus integrantes deve ocupar. Adriano e Vagner Love são os mais novos exemplos dessa necessidade. Negros e pobres devem ficar na favela. E se saírem dela, devem esquecer e negar sempre que vieram de lá. Negros e pobres só podem namorar e casar com negras e pobres. Se namorarem com loiras, brancas e bonitas, que se comportem e não se exibam muito. Até Pelé sofreu isso. Negros e pobres devem ser cordatos e bem comportados, como o negro da casa grande, de Gilberto Freyre, e quando se comportarem mal, como os negros da senzala, devem ser punidos exemplarmente e sem compaixão.
Também volta e meia, a sociedade brasileira exerce sem disfarces a sua moralidade hipócrita de classe média. Adriano e Vagner Love são acusados de manter relações cordiais com o tráfico de drogas, o nefasto e assassino poder paralelo que assola o Rio de Janeiro e outras grandes cidades do país. Recentemente, o galã Fábio Assunção assumiu seu vício em cocaína. Não foi crucificado e acusado de colaborar com o tráfico de drogas, uma vez que comprava a cocaína nos morros cariocas e não em farmácias. Foi tratado piedosamente, ganhou entrevista no Fantástico (que aliás abriu espaço para Adriano também) e recebeu todo o apoio para tratar sua dependência, como deve ser. Adriano e Vagner Love não usam drogas, até que se prove em contrário, uma vez que passam por exames antidoping constantes e nunca foram flagrados com qualquer substância proibida. O Funk carioca é sucesso nacional e sua batida característica infesta “nights”e baladas de todas as classes sociais, de norte a sul do país. Ninguém parece se importar que seja uma música nascida nos morros e comunidades carentes do Rio de Janeiro. Ninguém parece se importar que contenha letras muitas vezes machistas, misóginas e que utilize as mesmas expressões idiomáticas nascidas no mesmo tráfico de drogas. Aliás, nesse tópico, essa mesma linguagem de “bondes”, “já é”, “perdeu”, “geral”, “alemão”, é amplamente usada nas casas das melhores famílias. Bom, o momento mais importante do Big Brother Brasil chama-se “Paredão”.
Saindo do Funk, no Rio principalmente, mas também em outras cidades brasileiras, a sociedade não parece se importar com outros abusos contra a legalidade, com tantos Malufs, Arrudas, Garotinhos, Rorizes, eleitos e reeleitos. Isso sem falar nos crimes no trânsito, nas ligações clandestinas de água e luz em mansões na zona sul do Rio, na ocupação ilegal de áreas de mata atlântica por condomínios de luxo em Angra dos Reis e Paraty, etc, etc, etc.
Por fim, a sociedade brasileira também gosta de transferir responsabilidades. O jornalista Andre Rizek, apresentador do programa Redação Sportv, argumentou na segunda-feira, 22 de março, que os jogadores recebem dinheiro por direito de imagem e por isso devem cuidar das mesmas. Tem razão o Rizek, mas a situação merece uma análise mais profunda. Adriano e Vagner Love recebem boas quantias de direito de imagem porque marcam muitos gols e jogam bem no maior e mais popular clube brasileiro. Quando pararem de jogar, cessarão também os direitos de imagem. E aí está o ponto crucial da discussão. A função da dupla de ataque do Flamengo é fazer gols. Quem educa crianças e adolescentes são os pais e a escola. Quando um caso como esse aparece, cabe a pais e escolas mostrarem às crianças onde está o certo e onde está o errado. Provavelmente, se Adriano e Vagner Love tivessem tido acesso a escolas de qualidade, e não as sucateadas escolas públicas brasileiras, eles teriam mais claro a diferença entre o certo e o errado. Nessa mesma discussão, podemos analisar o papel da imprensa, principalmente dos diários mais populares que infestam as bancas de jornais do país. A cobertura sensacionalista dada ao noticiário policial e a construção de personagens a partir das figuras dos traficantes (vide Elias Maluco, Fernandinho Beira Mar, Marcinho VP, Escadinha e outros) também pode criar uma idéia de heroísmo e aventura. Mais uma vez cabe aos pais e escolas mostrar o certo e corrigir o errado.

Ivan Trindade, Jornalista

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6.3.10

Waiting Room

My tooth aches. My rent is past due. My fridge is empty. I am living the American dream, that's for sure. In the last two months, there has been an earthquake in Haiti, another one in Chile and we Californians are still waiting for ours. I just hope it hits when I'm commuting to work, at least it will be a change in my unbelievable boring daily routine. My God, LA is big. Two hours one way to wash dishes and wait on tables and two hours back to my as small as an asshole studio next door to a hooker and a crack head that yell, scream and fight all day and night.
But beats living in Sao Paulo, I guess. When I left Brazil, I believed in the American way of life. I realy thought that if you had the will to pursue your dream, it would eventually come you way. Three years later, I'm not so sure anymore. I mean, I'm good looking enough, I speak this fucking language fluently enough and my dick is hard enough to please any cock sucking producer. But still I'm waiting tables.
Well, I think it is not fair for me to complain. At least I'm not illegal or something like those poor guys I see everyday. Poor bastards always afraid of the Police, always with an eye open for the Migra, as they call the Imigration Officers. Hiding like sewer rats. Taking the shitiest jobs for the shitiest pay.
Maybe someday I'll get tired of all this Hollywood scene and go back to Brazil. at least there, I'll be the guy who made it in Los Angeles (litle they know).
Well, I'm next and if I get this part, things might just begin to look brighter for me. It's porn, It's only one scene and my crotch will get three times more screen time than my face but, hell, it 's something.
- Ricky Bravo!
- That's me!
-How are you? Come on in.
Wish me luck!

1.3.10

Poesia expressa urbana

Os dois atravessam a rua
Um é turista, mesmo aqui
O outro é todo paulistano
Cai um papel em meio à avenida
Vai se perder no vento
O turista pega e devolve
- Obrigado!

Avenida Santo Amaro
O 856R-10 ferve, mas o visto saiu
Ela se abana, ele se abana, eu me abano
Calor sem praia não tem graça
Na subida da Teodoro
Já é hábito
Nem me abano mais

O velho japonês quer sentar
Mas o casal de modernos não olha para cima
O velho japonês fica em pé
Se fosse outro, reclamaria
Mas é japonês

Só aqui há feriado engarrafado
O carro é alugado, mas tenho que devolver intacto
Já tinha ouvido falar
O cara passa e chuta o retrovisor
Bem vindo a Nove de Julho.

Ivan Trindade, 01/03/2010