14.5.10

O Flamengo e a histeria coletiva

Há tempos percebo na torcida do Flamengo uma ala botafoguense. Tal ala está cada vez maior. Só apoia o time quando o placar é favorável. Basta tomar um gol que começam os xingamentos, as vaias, os apupos. Nessa última quarta, no jogo contra a Universidade do Chile, tudo começou aos quatro minutos de jogo. O jovem Rômulo tentou sair driblando e perdeu a bola. Na próxima vez que tocou na bola, vaias. À quem a torcida acha que está ajudando ao vaiar um dos seus jogadores tão cedo, além do adversário? Será que acham que o Rômulo vai jogar melhor ao ser vaiado, ou não imaginam que podem desestabilizar ainda mais o jogador.
Ninguém é cego. O time jogou mal demais! Os primeiros 30 minutos de jogo foram um horror poucas vezes visto. Nada deu certo e os chilenos fizeram dois gols. Mas vaiar adianta? Não será mais útil e inteligente se colocar atrás do time e mostrar que os 70 mil nas arquibancadas acreditam nos 11 em campo?
Um rapaz ao meu lado vaiava e xingava insanamente o Vagner Love. O mesmo Vagner Love que fez o gol da classificação no Pacaembu, uma semana antes. O mesmo Vagner Love que é, sem dúvida, o melhor jogador do elenco no primeiro semestre de 2010.
O goleiro Bruno é outro exemplo. Sem ele, pode-se dizer, não seríamos hexacampeões brasileiros. Isso é um fato. Assim como os gols do Adriano, do Pet e do Zé Roberto, as defesas do Bruno garantiram a conquista. Não lembram do jogo contra o Santos, ou do jogo contra o Botafogo? Três penaltis batidos e três defendidos. Mas, mesmo assim, após um gol, engraçadinhos nas cadeiras resolvem mandar o Bruno tomar no cu. Pedem Júlio Cesar. Há como ser mais imbecil? Acho que não.
Juan é ainda mais um exemplo. Foi, sem dúvida, o jogador mais acionado no jogo de quarta-feira. Lutou, correu, acertou e errou (errou mais do que acertou). No fim, fez o gol que tornou o sonho da classificação no Chile menos um delírio e mais uma possibilidade. Mesmo assim, não escapa das vaias. Por que tanta insatisfação?
Ao assistir o comportamento da ala botafoguense da torcida, pode-se imagonar que ele é o acúmulo de irritações por uma série de fracassos desse grupo. mas não.
Com alterações aqui e ali, esse grupo de jogadores foi tricampeão estadual, campeão da Copa do Brasil e campeão brasileiro, além de ter chegado entre os cinco primeiros colocados no brasileirão nos últimos três anos (3o em 2007, 5o em 2008 e 1o em 2009). Tais resultados recolocaram o Flamengo no cenário internacional (Libertadores), o que não acontecia desde 2003. Sem contar o fim das lutas contra o rebaixamento.
Então, qual seria o motivo de tanta histeria e falta de apoio? Por que só fazer festa e ficar ao lado do time nos momentos de vitória? Para mim, isso é fruto de falta de informação. Parte da torcida vai ao estádio com o que chamo de espírito "Galvão Bueno", que se define por desconhecer as circunstâncias do jogo, a situação do próprio e time e ignorar totalmente o adversário.
O Universidade do Chile, por exemplo, está invicto na Libertadores e é vice-líder do campeonato chileno. É um bom time que, principalmente, sabe jogar fora de casa. Já havia mostrado isso na primeira fase contra o Flamengo e nas oitavas de final, quando derrotou o Alianza Lima, no Peru.
Ficar irritado com uma má atuação é mais do que compreensível. Mas agravar ainda mais a situação tornando o ambiente de jogo pesado com xingamentos e vaias é burrice. Não ajuda em nada o Flamengo e só dá corda aos criadores de crise que infestam a imprensa arco-íris, incensada desde o hexa e em missão permanente para implodir o time e o clube.
Na quarta, quase briguei com um idiota que teve a pachorra de dizer, com ar indignado: "Paguei ingresso, posso reclamar!" Por favor, meu filho. Ingresso não é imposto de renda. Paga quem quer. Futebol não é teatro, cinema ou show de música em que o espectador tem "direito" a ver algo de boa qualidade. Torcida não é platéia. Torcida é parte do jogo. Ali de cima, ela tem poder de influenciar e alterar os rumos da partida. Não é por causa do gramado ou do vestiário que se dá valor ao mando de campo, mas por causa da força da torcida, principalmente uma torcida como a do Flamengo, gigantesca, criativa e incansável.
Por isso, há que se manter a calma e apoiar. Sempre, independente das circunstâncias. Cobranças devem ser feitas após o jogo, no dia a dia do clube, para mostrar ao elenco e diretoria que estamos de olho e que desrespeito com o Flamengo não será aceito. Mas no Macaranã, com a bola rolando, há que se apoiar. Bora Mengão Sempre!
Ivan Trindade

Marcadores: , , , , , , ,

22.3.10

Por que ninguém pensa nas criancinhas?


Há duas semanas se apedreja Adriano e Vagner Love. O primeiro é acusado de ter uma namorada barraqueira, de ser amigo de traficantes e de ter dado uma moto de presente à mãe do chefe do morro da Chatuba. Ao outro, acusam de ter ido a um baile na Rocinha e recebido escolta de homens armados, que seriam soldados do tráfico de drogas.
O mais recente capítulo do apedrejamento aconteceu no final de semana de 20 e 21 de março, quando a Veja Rio dedicou sua capa às relações perigosas dos dois atletas com o poder paralelo do Rio de Janeiro. O texto, veemente como a Veja gosta de ser, acusa os dois jogadores de não terem consciência de suas importâncias como figuras públicas e ídolos para crianças e adolescentes e de considerarem normal o convívio com bandidos.
Antes da Veja Rio, o jornal O Dia dedicou uma semana inteira de reportagens sobre os deslizes do imperador rubro-negro. Publicaram que ele tem quase 100 pontos na carteira por repetidas infrações de trânsito, denunciaram o caso da moto (o único com alguma relevância) e afirmaram que Adriano não passa de um beberrão dado a orgias, que incluiriam anões, mulheres barbadas e até animais. 
Às denúncias, seguiram-se centenas de comentários e análises de jornalistas, esportivos ou não, sobre os desdobramentos e conseqüências do caso.
Tirando o sensacionalismo mais raso praticado tanto por Veja (esse exemplo de correção de conduta?!) e por O Dia, os episódios das últimas semanas servem de ponto inicial para algumas reflexões sobre a sociedade brasileira e a imprensa que, conseqüentemente, a espelha.
Volta e meia a sociedade brasileira sente que tem a necessidade de mostrar o local que cada um dos seus integrantes deve ocupar. Adriano e Vagner Love são os mais novos exemplos dessa necessidade. Negros e pobres devem ficar na favela. E se saírem dela, devem esquecer e negar sempre que vieram de lá. Negros e pobres só podem namorar e casar com negras e pobres. Se namorarem com loiras, brancas e bonitas, que se comportem e não se exibam muito. Até Pelé sofreu isso. Negros e pobres devem ser cordatos e bem comportados, como o negro da casa grande, de Gilberto Freyre, e quando se comportarem mal, como os negros da senzala, devem ser punidos exemplarmente e sem compaixão.
Também volta e meia, a sociedade brasileira exerce sem disfarces a sua moralidade hipócrita de classe média. Adriano e Vagner Love são acusados de manter relações cordiais com o tráfico de drogas, o nefasto e assassino poder paralelo que assola o Rio de Janeiro e outras grandes cidades do país. Recentemente, o galã Fábio Assunção assumiu seu vício em cocaína. Não foi crucificado e acusado de colaborar com o tráfico de drogas, uma vez que comprava a cocaína nos morros cariocas e não em farmácias. Foi tratado piedosamente, ganhou entrevista no Fantástico (que aliás abriu espaço para Adriano também) e recebeu todo o apoio para tratar sua dependência, como deve ser. Adriano e Vagner Love não usam drogas, até que se prove em contrário, uma vez que passam por exames antidoping constantes e nunca foram flagrados com qualquer substância proibida. O Funk carioca é sucesso nacional e sua batida característica infesta “nights”e baladas de todas as classes sociais, de norte a sul do país. Ninguém parece se importar que seja uma música nascida nos morros e comunidades carentes do Rio de Janeiro. Ninguém parece se importar que contenha letras muitas vezes machistas, misóginas e que utilize as mesmas expressões idiomáticas nascidas no mesmo tráfico de drogas. Aliás, nesse tópico, essa mesma linguagem de “bondes”, “já é”, “perdeu”, “geral”, “alemão”, é amplamente usada nas casas das melhores famílias. Bom, o momento mais importante do Big Brother Brasil chama-se “Paredão”.
Saindo do Funk, no Rio principalmente, mas também em outras cidades brasileiras, a sociedade não parece se importar com outros abusos contra a legalidade, com tantos Malufs, Arrudas, Garotinhos, Rorizes, eleitos e reeleitos. Isso sem falar nos crimes no trânsito, nas ligações clandestinas de água e luz em mansões na zona sul do Rio, na ocupação ilegal de áreas de mata atlântica por condomínios de luxo em Angra dos Reis e Paraty, etc, etc, etc.
Por fim, a sociedade brasileira também gosta de transferir responsabilidades. O jornalista Andre Rizek, apresentador do programa Redação Sportv, argumentou na segunda-feira, 22 de março, que os jogadores recebem dinheiro por direito de imagem e por isso devem cuidar das mesmas. Tem razão o Rizek, mas a situação merece uma análise mais profunda. Adriano e Vagner Love recebem boas quantias de direito de imagem porque marcam muitos gols e jogam bem no maior e mais popular clube brasileiro. Quando pararem de jogar, cessarão também os direitos de imagem. E aí está o ponto crucial da discussão. A função da dupla de ataque do Flamengo é fazer gols. Quem educa crianças e adolescentes são os pais e a escola. Quando um caso como esse aparece, cabe a pais e escolas mostrarem às crianças onde está o certo e onde está o errado. Provavelmente, se Adriano e Vagner Love tivessem tido acesso a escolas de qualidade, e não as sucateadas escolas públicas brasileiras, eles teriam mais claro a diferença entre o certo e o errado. Nessa mesma discussão, podemos analisar o papel da imprensa, principalmente dos diários mais populares que infestam as bancas de jornais do país. A cobertura sensacionalista dada ao noticiário policial e a construção de personagens a partir das figuras dos traficantes (vide Elias Maluco, Fernandinho Beira Mar, Marcinho VP, Escadinha e outros) também pode criar uma idéia de heroísmo e aventura. Mais uma vez cabe aos pais e escolas mostrar o certo e corrigir o errado.

Ivan Trindade, Jornalista

Marcadores: , , , , , , , , ,