2.11.10

Carta aberta à Soninha Francine

Cara Soninha,

Não nos conhecemos. Acompanhei sua carreira pela televisão, desde os tempos de MTV.

Sempre gostei de você, da sua imagem pública, do jeito como você se meteu no futebol, sem medo de entrar em um campo quase que totalmente dos homens.

Fiquei do seu lado quando você foi crucificada pela mídia retrógrada ao assumir que fumava maconha e que já tinha feito um aborto. Solidarizei-me quando você foi demitida da TV Cultura tucana por esses mesmos “crimes”.

Mesmo longe, morando em Porto Alegre e depois no Rio, fiquei sabendo do início da sua carreira política, das suas idéias progressistas quanto ao meio ambiente, e sua luta por um trânsito mais civilizado e humano em São Paulo.

Quando você saiu do PT, achei normal, afinal a luta progressista pode ser feita em ouros espaços e ninguém é obrigado a ser petista, mas não esperava o que estava por vir.

Quando me mudei para São Paulo, em janeiro de 2008, pensei que agora poderia votar em você, mas um descuido me fez perder a data para mudar o domicílio eleitoral, mas te apoiei no primeiro turno da eleição para prefeita.

O primeiro estranhamento veio logo no segundo turno, quando vi você apoiar Gilberto Kassab. Sei que recém saída do PT seria difícil apoiar marta, mas porque não ficar neutra?

O segundo estranhamento veio quando você aceitou ser sub-prefeita da lapa na administração do mesmo Kassab. Fiquei pensando se o apoio não tinha sido na verdade a sua parte no trato com o Demo? Será que foi?

Mesmo assim, continuei seu fã. Continuei achando que você representava um conjunto de idéias interessantes para a discussão política no país.

Mas aí, veio 2010, e não tive mais como te apoiar.

Não lembro o dia exato em que aconteceu, mas lembro muito bem da reação que tive ao ler a notícia de que você apoiaria José Serra para presidente. E não apenas isso, faria parte da campanha.

Ok, José Serra não é o demônio e apesar de não votar nele de forma alguma, reconheço que é um nome importante na política nacional. Nada demais em apoiar José Serra, claro.

Porém, você mesmo sentiu que o apoio era difícil de digerir e foi obrigada a publicar uma justificativa no seu blog.

Mas aí veio a campanha e o José Serra que conhecíamos sumiu. No seu lugar, apareceu um beato raivoso, um mentiroso patológico e uma aproveitador baixo.

Serra jogou sua biografia no lixo e você aproveitou para jogar a sua também.

Desde o início, os panfletos apócrifos, a aliança com o que há de pior na igreja católica, nas igrejas evangélicas e na grande mídia.

O que já começou mal, só piorou, com boatos diários atacando a imagem da adversária. Se negavam autoria do jogo sujo, a campanha oficial e o próprio candidato em momento algum desautorizaram a campanha subterrânea mais suja da história da democracia brasileira. E você no centro disso tudo.

Lembra do episódio do metrô, quando sem prova alguma você insinuou uma sabotagem petista?

Teve também a propaganda em que aparecia o Zé Dirceu chamando a Dilma de “Minha companheira de armas”. Que feio tentarem criminalizar os bravos brasileiros que lutaram contra a ditadura, um deles o próprio José Serra.

Mas vocês acharam que isso daria votos. No final, conseguiram dividir o país e criar um clima de ódio como nunca antes se havia visto.

Exploraram também a questão do aborto com a própria esposa do candidato Serra chamando a adversária de “matadora de criancinhas”. Então, como milagre, os apoiadores de Serra colocaram fotos de bebês como avatar no Twitter e no Facebook. A quem serve isso? É com esse debate político que vocês queriam propor uma alternativa para o país? O que dizer então da hipocrisia quando foi revelado que a própria Mônica Serra havia feito um aborto?

É claro que houve erros do lado da campanha da Dilma e dos seus apoiadores, inclusive dos “blogs sujos”, assim apelidados pelo Serra. Não serve a ninguém chamar Serra de vampiro (o que eu fiz também e peço desculpas), de fujão e de qualquer outra coisa, mas você há de convir que há uma grande diferença entre usar apelidos maldosos e distribuir milhões de panfletos chamando Dilma de terrorista assassina. Muitos desses panfletos produzidos em uma gráfica de propriedade da esposa de um tucano envolvido na campanha.

Outro bom fator de comparação entre as duas campanhas foi o programa de TV. No de Serra, ataques, disseminação de preconceitos e tentativa de desclassificação da Dilma, além de propostas vazias e eleitoreiras. No programa de Dilma, prestação de contas dos feitos do governo Lula e compromissos concretos baseados na experiência de quem governa o país com sucesso há oito anos, com 83% de aprovação. Até acho que você pode não ter tido nada a ver com os programas de TV, mas concordou com a exploração do tema do aborto, por exemplo.

Já no primeiro turno, ficou claro que o povo não aprovava tal estratégia e se não fosse o fator Marina, vocês já teriam sido derrotados. A campanha do Serra, porém, não fez essa leitura e resolveu insistir no debate político mais baixo possível.

Não só mantiveram, como aprofundaram a tentativa de enganar a população. Com a ajuda da Rede Globo, forjaram um ataque ao candidato por petistas raivosos em Campo Grande. Uma bolinha de papel virou um objeto de dois quilos, mas que milagrosamente não deixou nenhuma marca ao atingir em cheio a cabeça do candidato. Logo o ridículo foi exposto e Serra virou hit no Twitter. Nesse dia fui ver o que você estava escrevendo no microblog e descobri que o humor tinha sumido da sua vida. Você bradava que o PT sempre fazia isso. Tinha comprado a tese do ataque fajuto.

Veio a eleição e o povo deu o seu recado. Mais 4 anos para o projeto que vem transformando o Brasil desde 2003. Terceira derrota seguida para o partido que quase jogou o Brasil na bancarrota, mesmo vendendo várias partes do patrimônio nacional. E principalmente derrota para o candidato que escolheu o ódio, a divisão, a mentira, a raiva.

Na segunda-feira, dia 1o de novembro, assisti a um vídeo na internet. Era um debate entre você e o prefeito petista de Osasco (obrigado pelas correções). Tenho que te dizer que me assustei. A Soninha que eu estava acostumado a ver na ESPN BR e antes disso na MTV, sempre leve e com um cacoete de rir enquanto falava havia sumido. No lugar, vi uma mulher raivosa, exasperada, desesperada mesmo com a derrota acachapante que havia sofrido (digamos que 12 milhões de votos de diferença é uma derrota acachapante). Vi uma mulher tentando transferir para os adversários tudo aquilo que ela mesma fez durante a campanha. Todas as mentiras, as agressões e as estratégias subterrâneas que mancharam a democracia brasileira.

Hoje me pergunto se vou voltar a ver a Soninha que estava acostumado a ver na TV ou se aquela jornalista séria e progressista deu lugar definitivamente a uma agente política raivosa que usa o que há de pior no mundo da comunicação para tentar eleger seu candidato? Fica a pergunta.


Abraços

Ivan Trindade

Jornalista

Marcadores: , , , ,

18.9.10

As fotos na sala da minha vó

Na parede principal da sala do apartamento da minha avó Nayde, em Copacabana, havia duas fotos. Uma de Getúlio Vargas e outra de Leonel Brizola. Meu avô Renato tinha ciúme, mas não falava nada. Em 1982, eu tinha 6 anos e não lembro de muita coisa. Lembro de andar pelas ruas de Copa com uma bandeira gigante do PDT, duas na verdade, que minha avó havia ganho num comício. Saíamos do Posto 6 e andávamos até o Leme, onde montávamos guarda até que o gaúcho saísse na janela para saudar seus eleitores e seguidores. Daquela eleição, lembro também das sobrancelhas de Moreira Franco e de entrar na cabine de votação com a minha mãe e marcar a cédula para Leonel Brizola. Ela votava no prédio de Furnas, em Botafogo, onde acho que vota até hoje. Com essas mesmas bandeiras, fomos ao comício das Diretas Já, na Candelária, em 1984.
Minha mãe herdou a paixão da minha vó pelo governador. Uma vez, no Rio Sul, deu um ataque com um vendedor de um stand de artigos para mágicas que oferecia um cocô de cachorro falso apelidado de Brizola. Lembro dos seus gritos de indignação e da cara de espanto do rapaz. Dona Lourdes foi mais do que apenas eleitora. Filiada ao PDT, participava de reuniões do partido sobre educação. Fui a algumas dessas reuniões com ela. Quase nada ficou na memória, a não ser o nome Caó, líder dos encontros. Foi lá também que ouvi pela primeira vez a expressão que me segue até hoje. Ouvi alguem ser chamado de companheiro. Esse tratamento, tão típico da esquerda, entrou em meu mundo naquelas reuniões da década de 80.
Mas minha mãe fez mais. Professora do Estado, participou do grupo de implantação dos CIEPs (que o povo logo apelidou de Brizolões), idéia brilhante do gênio Darcy Ribeiro. O CIEP 01 se chama Tancredo Neves e fica no bairro do Catete, a metros do palácio onde o presidente Vargas se suicidou. Em 1986, era lá que minha mãe trabalhava como coordenadora. Muitas vezes saí do meu colégio São Vicente de Paulo para passar a tarde no CIEP. Ficava na biblioteca, filava o almoço e jogava bola. Em 1986, perdi minha primeira eleição. Darcy Ribeiro foi derrotado por Moreira, segundo muitos com fraude patrocianda pela Globo, que já tinha tentado o mesmo em 1982, contra Brizola.
Encontrei Brizola pessoalmente pela primeira e única vez no centro do Rio. Minha mãe descobriu que Daniel Ortega, então presidente da Nicarágua e líder dos Sandinistas, estava na cidade e que daria palestra junto com o gaúcho. Não conseguimos entrar para assistir, mas ficamos na porta e, quando os dois saíram, Dona Lourdes me jogou para cima do governador. Ganhei um afago na cabeça e um sorriso. Não lembro em que ano isso aconteceu.
Em 1987 fui a Cuba. A família toda. Depois de passar pelo Perú, onde fomos a Machu Pichu, pegamos um avião até a Cidade do Panamá. Lá, embarcamos em um avião russo da Cubana de Aviacion. Da ilha, ficaram a piscina do Habana Riviera, com a plataforma de 10 metros, os almoços de peixe a milanesa, a praia de Varadero, o odor e o gosto do charuto que meu pai comprou no saguão do hotel, o mesmo odor da fábrica de puros que visitamos, e a Bodeguita Del Medio. Uma noite, meu irmão Júlio passou mal e foi de ambulância para o hospital. Lembro do meu pai dizendo que turistas eram os únicos que precisavam pagar pelo atendimento médico.
Mais dois anos passaram e chegamos a 1989. Eu já tinha 13 anos. No São Vicente de Paulo, colégio de tradição progresista, cujos padres deram refúgio nos porões da escola a prerseguidos pela ditadura militar, anadava de lenço vermelho no pescoço, marca da campanha de Brizola. Foi também no São Vicente que conheci uma nova e futuramente poderosa entidade da política brasileira: o petista. O professor de história da 6a série se chamava Edson, um gordinho com bigode amarelo de cigarro. Inocente, insolente e brizolista, numa discussão sobre as eleições para presidente repeti para ele aquela ladainha de que Lula não poderia ser presidente pois não tinha estudado. Levei um dos grandes sermões da minha vida.
A primeira eleição para presidente em 30 anos ficou na memória também pelos debates na televisão. No primeiro turno não houve alianças e todos os partidos lançaram candidatos próprios. A eleição de 1989 foi uma antologia de grandes figuras políticas como nunca mais haverá, tanto para o bem quanto para o mal. Concorreram Brizola, Lula, Ulisses, Aureliano, Maluf, Covas, Freire, Afif, Caiado e o neófito Collor, que se recusou a participar dos debates. O gaúcho brilhou ao chamar Maluf, Caiado e outros de filhotes da ditadura e também quando, no último debate antes do primeiro turno, pediu, emocionado, para que o eleitor votasse em qualquer um dos candidatos que ali estavam, mas não votasse em Collor, para ele um candidato fabricado pela Globo e pela Veja. Para variar, estava certo.
No segundo turno, me emocionei com o Lula-lá! Fui aos comícios no Rio, mais uma vez com as bandeiras do PDT de minha avó. Chorei com a vitória de Collor e com a escrotidão da Globo. Logo depois, porém, lembro que ri muito ao ver o vizinho do apartamento de baixo, um médico collorido, que entrou em desespero ao ver seu dinheiro todo confiscado pela Zélia. Brizola estava certo de novo.
Três anos depois, aos 16, estava nas ruas, para derrubar o corrupto Collor. Estudante do São Vicente, justo a ex-escola do presidente, vivia a ebulição da adolescência e da unanimidade contra os bandidos. Dessa vez, Brizola foi contra a maré e pagou por isso pelo resto da vida política. Hoje, olhando melhor, talvez não estivesse totalmente errado. Não é difícil avaliar que o povo embarcou numa onda de moralidade que levou a um golpe de estado articulado pela grande mídia.
Votei pela primeira vez em 1994, para presidente. Dona Lourdes e Dona Nayde seguiam fieis a Brizola e as discussões em casa ficaram quentes. De um lado, a velha esquerda dos caudilhos, do outro, a nova, de Lula e o PT. Essa divisão e o impulso do Plano Real derrotaram a esquerda mais uma vez. FHC estava eleito.
Quatro anos depois, em meio a muitos "Fora FHC", que vendia o país e comprava deputados para conseguir a reeleição, nova derrota. A partir desse ano, porém, minha vida passou a ser ligada, mais uma vez, ao estado de Brizola. Depois de muitas idas e vindas em 98, finalmente o amor me levou ao Rio Grande do Sul em março de 1999. Em Porto Alegre, encontrei o PT forte, governando o Estado, com Olívio Dutra, e a capital, com Raul Pont.
Confesso que os primeiros dois anos de vida gaúcha não foram de engajamento. Em 2000, houve a campanha vitoriosa para eleger Tarso Genro prefeito de Porto Alegre. Em 2002, porém, a briga seria maior. Era preciso eleger o sucessor de Olívio no governo do Estado e Lula presidente. As duas campanhas foram exemplos, novamente para o bem e para o mal. No RS, o PT fez tudo errado. O carismático governador Olívio foi preterido em sangrenta primária interna e Tarso ganhou a vaga, deixando a prefeitura, o que tinha prometido em campanha não fazer. Os gaúchos puniram a falta de palavra e com a ajuda maciça da RBS, Germano Rigotto foi eleito. No país, por outro lado, o partido fez tudo certo e Lula finalmente afinou o discurso e conseguiu se comunicar com o povo, aproveitando também o desgaste do governo FHC. Estava eleito o primeiro presidente operário do país.
E, então, veio o Fórum Social Mundial. Em janeiro de 2003, com Lula recém eleito e Bush a ponto de invadir o Iraque, estar em Porto Alegre era estar no lugar certo na hora certa. A proposta de um outro mundo possível, dois anos após o ataque às torres do WTC, soou como música para a esquerda do mundo todo. Na terceira edição do FSM, criado em 2001, marchou-se, palestrou-se, protestou-se, propos-se, queimou-se fazenda da Monsanto e uns até quebraram um McDonalds. No geral, nada mudou, mas foi bom. Ainda em 2003, crise no PT, com a saída dos chamados radicais liderados por Heloísa Helena.
Fazia-se política também na PUCRS, onde cursava jornalismo. Em 2004, o DCE da universidade estava tomado pela direita, com acusações de intimidações, desvio de verbas e outros escândalos. Lutou-se, fez-se passeatas, ocupou-se o campus por 8 dias (os companheiros que lá estavam foram atacados brutalmente na calada da noite) e levou-se a questão até a Assembléia Legislativa Gaúcha. Perdemos e os bandidos, tenho impressão, seguem lá. Para terminar, em outubro, Raul Pont perdeu a eleição para a prefeitura de Porto Alegre. O que era só festa quando cheguei, tinha virado só lamento.
Durante quase todo o meu período na capital gaúcha, trabalhei na Rádio Gaúcha, da RBS. Se ali fiz amigos, alguns que mantenho até hoje, foi ali também que presenciei os primeiros casos claros de manipulação de noticias. Lembro de matéria do repórter Cid Martins sobre a Brigada Militar que foi ao ar num sábado e nunca mais, vetada pela direção amiga do comandante da BM e do governador Rigotto. Não esqueço também da redatora Silvia Caviccioli, demitida sumariamente por ter errado uma quantia numa nota que atacava o PT. Tornou milhões o que eram milhares e virou bode expiatório.
Deixei Porto Alegre em fevereiro de 2005, voltando para o Rio de Janeiro. No estado fluminense, da velha política, havia sobrado apenas o populismo inspirado em Brizola. O casal Garotinho, primeiro Anthony e depois Rosinha, dominava o governo do estado desde 1998, quando votei em Garotinho para governador, do que até hoje me arrependo. O PT, como sempre, não existia no Rio, agora acoplado aos nefastos campistas. Na sucessão desse governo, já em 2006, lançou Vladimir Palmeira, que não pasou para o segundo turno. Para presidente, Lula até passou um susto no final do 1o turno, mas depois navegou para derrotar Geraldo Alckmin.
Cheguei em São Paulo em janeiro de 2008. Na eleição para prefeito, em outubro, justifiquei. A política parecia longe. Até me peguei com uns pensamentos reacionários.
Mas, então, veio 2010. Lula lançou Dilma, a direita insistiu com José "Vampiro da Mooca" Serra e a grande mídia escolheu seu lado, como não poderia deixar de ser. Este ano, porém, há uma diferença. Um emaranhado de blogs brilhantes fazem o contraponto democrático à manipulação.
A vitória tudo indica, virá. Serão mais quatro anos de governo popular. Quando for votar, no dia 3 de outubro, lá na rua Capote Valente, vou lembrar dos dois retratos na parede da minha avó. Nada mais apropriado, já que Dilma, por acaso, veio do PDT.
Ivan Trindade

Marcadores: , , , , , , , ,